Arquivo mensal: junho 2015

Codex Avalon – Morgana

Morgana 1

Morgana Le Fay (Morgana “A Fada”, em francês), é uma personagem central da lenda arthuriana. Suas origens são muito discutidas, mas pode tanto ser uma versão de uma divindade galesa chamada Modron (“Mãe”), uma representação de divindades das águas existentes na antiga Bretanha ou até mesmo uma versão da deusa irlandesa Morrígan (que, por sinal, inspirou uma popular personagem do game de luta Darkstalkers). Ora mencionada como rainha das fadas, ora como principal sacerdotisa de Avalon, Morgana tem um papel bem secundário nas primeiras fontes sobre o mito, aumentando de importância conforme as histórias mudaram e se espalharam com o tempo.

A primeira menção a Morgana a descreve como líder das sacerdotisas (na maioria das versões, um número total de nove, também mencionadas como sendo suas oito irmãs) de Avalon e responsável por cuidar dos ferimentos do Rei Arthur depois de ele tombar na Batalha de Camlaan. Nessas versões já se menciona seus poderes e papel de feiticeira – embora por uma óptica mais positiva.

A partir do séc. XIII, principalmente nas versões francesas da lenda, Morgana começa a ganhar o papel de vilã pelo qual ficou mais conhecida. O compêndio “A Morte de Arthur” (1485), de Sir Thomas Malory, dá continuidade a essa visão da personagem.

Passando a ser descrita como filha de Igraine, mãe de Arthur, com Gorlois, Duque da Cornuália e seu primeiro marido, Morgana teria presenciado, quando criança, Uther Pendragon matar seu pai, disfarçar-se como ele com magia e roubar sua mãe – da união dos dois nascendo Arthur. Isso faz de Morgana meia-irmã do futuro rei e explica boa parte de seu ódio em relação a ele. Suas irmãs continuam sendo mencionadas, mas com outros nomes, entre as quais Morgause – consequentemente também meia-irmã de Arthur.

Após tomar Igraine como esposa, Uther envia Morgana a um convento, no qual inicia seus estudos de magia (inclusive sendo aluna de Merlin, em determinado ponto) e sai quando adulta, disposta a se vingar do filho do homem que destruiu sua família.

Morgana acaba prometida em casamento ao Rei Urien, com quem não tem uma união feliz – traindo-o com diversos amantes e envolvendo-se em tentativas de matá-lo. Guinevere, esposa de Arthur, acaba descobrindo tal segredo, ameaçando revelá-lo e dando início a uma grande inimizade entre ela e a feiticeira. Morgana passa a atormentar a rainha, o cavaleiro Lancelot e a tentar expor o caso entre os dois. Em outras versões, Morgana na verdade se apaixona por Lancelot, mas ele a recusa em favor de Guinevere – dando outra razão para o ódio entre as duas mulheres. Mesmo com o péssimo relacionamento com o marido, Morgana chegou a ter um filho com Urien: Ywain, que se torna Cavaleiro da Távola Redonda.

A personagem também elabora inúmeros planos para destruir Arthur, atraindo-o a armadilhas, aprisionando seus cavaleiros ou causando conflitos dentro do reino, com Merlin e Viviane (Dama do Lago) agindo em defesa do rei e na maioria das vezes fazendo os esquemas fracassarem. Um dos episódios, relatados por Malory, é o roubo da bainha da Excalibur, que prevenia Arthur de sangrar de seus ferimentos (e artefato que, por sinal, tem papel importante em “O Legado de Avalon”). Tornada a maior vilã da Távola Redonda, Morgana passa a ser temida por toda Camelot e isola-se num vale amaldiçoado, chamado de Vale Perilous ou Val sans Retour, dependendo da versão da lenda, do qual nenhum cavaleiro jamais retornaria.

Mesmo com toda essa vilania, o final do mito continuou respeitando a maneira como Morgana era mostrada nas primeiras versões: ela acaba se arrependendo do que fez a Arthur e, após a Batalha de Camlaan, ainda é uma das responsáveis por levá-lo à ilha de Avalon e cuidar de seus ferimentos, para que o rei possa retornar um dia.

Ora tratada como vilã absoluta da saga arthuriana, ora como personagem injustiçada e má compreendida, Morgana já foi adaptada de diversas maneiras na cultura pop. Nas últimas décadas, tem sido quase sempre fundida à irmã, Morgause, e colocada como mãe de Mordred numa relação proibida com o meio-irmão Arthur – papel que não lhe pertence nas versões mais antigas da lenda, mas que foi usado em “O Legado de Avalon”.

Vamos conhecer algumas dessas adaptações:

Morgana 2

Excalibur (1981): A Morgana deste filme, interpretada por Helen Mirren, é uma mistura de Morgana, Morgause e Dama do Lago. É mostrado logo no início seu papel como filha de Igraine e Gorlois, e como presenciou a barbaridade de um estranho invadir sua casa, tomar-lhe a mãe e matar seu pai. Morgana torna-se a vilã da história, seduzindo Arthur ao se disfarçar como Guinevere e concebendo Mordred, que matará o rei em Camlaan. Esta versão da personagem também incorpora a Dama do Lago por ser ela, ao invés de Viviane, quem prende o mago na Caverna de Cristais, depois de ser sua aluna de magia.

 

– As Brumas de Avalon (2001):  Nesse filme a história é narrada sob a perspectiva de Morgana (Juliana Margulies), uma sacerdotisa da lendária ilha de Avalon, onde nasceu a religião da Deusa Mãe. A narrativa é vista pelas mulheres: Morgause, Viviane, Igraine e Morgaine (Morgana), contando que os saxões varreram a Bretanha matando os cristãos e seguidores da Deusa Mãe. Em meio a esse enredo, com a morte do rei sendo profetizada, elas planejam salvar Avalon e sua religião manipulando a linhagem real para que Arthur assuma, um rei que abraçará as crenças pagãs e o cristianismo. Com um mix da lenda e um roteiro original, esse filme recria a história mudando diversos pontos, como Morgana sendo manipulada para gerar um filho com Arthur.

– Merlin (2008-2012): Aqui Morgana é interpretada por Kaith McGrath. Assim como todo o seriado em si, a essência dos personagens foi mantida, mas seus enredos acabaram bastante modificados em relação ao mito original. No início, Morgana é uma protegida de Uther Pendragon em Camelot, convivendo com Arthur, Merlin e Guinevere e retratada como uma personagem bondosa. Ao longo das temporadas da série, por influência da irmã Morgause, Morgana descobre ter poderes mágicos, ser filha ilegítima de Uther com outra mulher (Viviane, mas não a Dama do Lago, e sim uma personagem do mesmo nome antes casada com Gorlois, tal qual o mito), tornando-se vilã principal da série até seu término. A personagem acaba adotando o menino druida Mordred como protegido (ele não é filho nem de Morgana, nem de Morgause) e acaba orquestrando a morte de Arthur. Diferente do mito, Morgana não se arrepende ao final, sendo morta por Merlin.

 

Camelot (2011): A série do canal Starz, cancelada após só uma temporada, também usava Thomas Malory como fonte principal para adaptar o mito. Consequentemente, a Morgana do seriado, interpretada por Eva Green, é bem fiel à “Morte de Arthur”. Surgindo na história após deixar o convento em que foi abandonada quando criança, Morgana mata Uther Pendragon, bane Igraine (que aqui é só mãe de Arthur, não dela) e, somando forças ao rei Lot (que faz o papel do Urien da lenda), quer consolidar-se como soberana de Camelot, tirando Arthur do caminho. A série termina com Morgana disfarçando-se como Guinevere, deitando-se com Arthur e gerando Mordred. Infelizmente não mais veremos o resto da história.

 

DC Comics (1972-atual): Como dito anteriormente no códex sobre Mordred, Morgana é uma vilã do universo sobrenatural da DC Comics. Surgindo numa aparência bem diferente da convencional (parecendo inclusive uma versão feminina do “Doutor Destino” da Marvel, com sua pele metalizada), nesta versão a feiticeira é irmã de Nimueh (aqui, uma personagem separada da Viviane, que se torna a Madame Xanadu) e de Viviane (Dama do Lago), as três sendo descendentes dos atlantes e se transformando em Homo Magi, uma espécie de humanos com maior afinidade à magia. No universo DC pós Flashpoint, aparentemente ela só é irmã de Nimueh, ambas filhas de Igraine. Seu papel na lenda arthuriana é similar ao clássico, e a vilã sobrevive até os tempos modernos obcecada pela eterna juventude e poder. Um de seus principais opositores é Jason Blood, um guardião que recebeu o demônio Etrigan graças a um feitiço de Merlin, tornou-se imortal e combate a feiticeira na época atual.

 

Marvel Comics (1955-atual): A Marvel também tem sua versão de Morgana Le Fay – visto que o mito é domínio público. Originalmente vilã do personagem Black Night (Cavaleiro Negro) e descendente de elfos (ligação com o universo do Thor), foi trazida aos tempos modernos inicialmente como vilã da Spider-Woman e aliada (também amante) do Doutor Destino. O início das histórias da personagem girava em torno de suas tentativas de recuperar o Darkhold, um livro mágico roubado pelo feiticeiro Magnus (mestre da Spider-Woman). Mais tarde tornou-se vilã recorrente da Marvel, aparecendo em arcos dos Vingadores.

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