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Codex Avalon – Morgana

Morgana 1

Morgana Le Fay (Morgana “A Fada”, em francês), é uma personagem central da lenda arthuriana. Suas origens são muito discutidas, mas pode tanto ser uma versão de uma divindade galesa chamada Modron (“Mãe”), uma representação de divindades das águas existentes na antiga Bretanha ou até mesmo uma versão da deusa irlandesa Morrígan (que, por sinal, inspirou uma popular personagem do game de luta Darkstalkers). Ora mencionada como rainha das fadas, ora como principal sacerdotisa de Avalon, Morgana tem um papel bem secundário nas primeiras fontes sobre o mito, aumentando de importância conforme as histórias mudaram e se espalharam com o tempo.

A primeira menção a Morgana a descreve como líder das sacerdotisas (na maioria das versões, um número total de nove, também mencionadas como sendo suas oito irmãs) de Avalon e responsável por cuidar dos ferimentos do Rei Arthur depois de ele tombar na Batalha de Camlaan. Nessas versões já se menciona seus poderes e papel de feiticeira – embora por uma óptica mais positiva.

A partir do séc. XIII, principalmente nas versões francesas da lenda, Morgana começa a ganhar o papel de vilã pelo qual ficou mais conhecida. O compêndio “A Morte de Arthur” (1485), de Sir Thomas Malory, dá continuidade a essa visão da personagem.

Passando a ser descrita como filha de Igraine, mãe de Arthur, com Gorlois, Duque da Cornuália e seu primeiro marido, Morgana teria presenciado, quando criança, Uther Pendragon matar seu pai, disfarçar-se como ele com magia e roubar sua mãe – da união dos dois nascendo Arthur. Isso faz de Morgana meia-irmã do futuro rei e explica boa parte de seu ódio em relação a ele. Suas irmãs continuam sendo mencionadas, mas com outros nomes, entre as quais Morgause – consequentemente também meia-irmã de Arthur.

Após tomar Igraine como esposa, Uther envia Morgana a um convento, no qual inicia seus estudos de magia (inclusive sendo aluna de Merlin, em determinado ponto) e sai quando adulta, disposta a se vingar do filho do homem que destruiu sua família.

Morgana acaba prometida em casamento ao Rei Urien, com quem não tem uma união feliz – traindo-o com diversos amantes e envolvendo-se em tentativas de matá-lo. Guinevere, esposa de Arthur, acaba descobrindo tal segredo, ameaçando revelá-lo e dando início a uma grande inimizade entre ela e a feiticeira. Morgana passa a atormentar a rainha, o cavaleiro Lancelot e a tentar expor o caso entre os dois. Em outras versões, Morgana na verdade se apaixona por Lancelot, mas ele a recusa em favor de Guinevere – dando outra razão para o ódio entre as duas mulheres. Mesmo com o péssimo relacionamento com o marido, Morgana chegou a ter um filho com Urien: Ywain, que se torna Cavaleiro da Távola Redonda.

A personagem também elabora inúmeros planos para destruir Arthur, atraindo-o a armadilhas, aprisionando seus cavaleiros ou causando conflitos dentro do reino, com Merlin e Viviane (Dama do Lago) agindo em defesa do rei e na maioria das vezes fazendo os esquemas fracassarem. Um dos episódios, relatados por Malory, é o roubo da bainha da Excalibur, que prevenia Arthur de sangrar de seus ferimentos (e artefato que, por sinal, tem papel importante em “O Legado de Avalon”). Tornada a maior vilã da Távola Redonda, Morgana passa a ser temida por toda Camelot e isola-se num vale amaldiçoado, chamado de Vale Perilous ou Val sans Retour, dependendo da versão da lenda, do qual nenhum cavaleiro jamais retornaria.

Mesmo com toda essa vilania, o final do mito continuou respeitando a maneira como Morgana era mostrada nas primeiras versões: ela acaba se arrependendo do que fez a Arthur e, após a Batalha de Camlaan, ainda é uma das responsáveis por levá-lo à ilha de Avalon e cuidar de seus ferimentos, para que o rei possa retornar um dia.

Ora tratada como vilã absoluta da saga arthuriana, ora como personagem injustiçada e má compreendida, Morgana já foi adaptada de diversas maneiras na cultura pop. Nas últimas décadas, tem sido quase sempre fundida à irmã, Morgause, e colocada como mãe de Mordred numa relação proibida com o meio-irmão Arthur – papel que não lhe pertence nas versões mais antigas da lenda, mas que foi usado em “O Legado de Avalon”.

Vamos conhecer algumas dessas adaptações:

Morgana 2

Excalibur (1981): A Morgana deste filme, interpretada por Helen Mirren, é uma mistura de Morgana, Morgause e Dama do Lago. É mostrado logo no início seu papel como filha de Igraine e Gorlois, e como presenciou a barbaridade de um estranho invadir sua casa, tomar-lhe a mãe e matar seu pai. Morgana torna-se a vilã da história, seduzindo Arthur ao se disfarçar como Guinevere e concebendo Mordred, que matará o rei em Camlaan. Esta versão da personagem também incorpora a Dama do Lago por ser ela, ao invés de Viviane, quem prende o mago na Caverna de Cristais, depois de ser sua aluna de magia.

 

– As Brumas de Avalon (2001):  Nesse filme a história é narrada sob a perspectiva de Morgana (Juliana Margulies), uma sacerdotisa da lendária ilha de Avalon, onde nasceu a religião da Deusa Mãe. A narrativa é vista pelas mulheres: Morgause, Viviane, Igraine e Morgaine (Morgana), contando que os saxões varreram a Bretanha matando os cristãos e seguidores da Deusa Mãe. Em meio a esse enredo, com a morte do rei sendo profetizada, elas planejam salvar Avalon e sua religião manipulando a linhagem real para que Arthur assuma, um rei que abraçará as crenças pagãs e o cristianismo. Com um mix da lenda e um roteiro original, esse filme recria a história mudando diversos pontos, como Morgana sendo manipulada para gerar um filho com Arthur.

– Merlin (2008-2012): Aqui Morgana é interpretada por Kaith McGrath. Assim como todo o seriado em si, a essência dos personagens foi mantida, mas seus enredos acabaram bastante modificados em relação ao mito original. No início, Morgana é uma protegida de Uther Pendragon em Camelot, convivendo com Arthur, Merlin e Guinevere e retratada como uma personagem bondosa. Ao longo das temporadas da série, por influência da irmã Morgause, Morgana descobre ter poderes mágicos, ser filha ilegítima de Uther com outra mulher (Viviane, mas não a Dama do Lago, e sim uma personagem do mesmo nome antes casada com Gorlois, tal qual o mito), tornando-se vilã principal da série até seu término. A personagem acaba adotando o menino druida Mordred como protegido (ele não é filho nem de Morgana, nem de Morgause) e acaba orquestrando a morte de Arthur. Diferente do mito, Morgana não se arrepende ao final, sendo morta por Merlin.

 

Camelot (2011): A série do canal Starz, cancelada após só uma temporada, também usava Thomas Malory como fonte principal para adaptar o mito. Consequentemente, a Morgana do seriado, interpretada por Eva Green, é bem fiel à “Morte de Arthur”. Surgindo na história após deixar o convento em que foi abandonada quando criança, Morgana mata Uther Pendragon, bane Igraine (que aqui é só mãe de Arthur, não dela) e, somando forças ao rei Lot (que faz o papel do Urien da lenda), quer consolidar-se como soberana de Camelot, tirando Arthur do caminho. A série termina com Morgana disfarçando-se como Guinevere, deitando-se com Arthur e gerando Mordred. Infelizmente não mais veremos o resto da história.

 

DC Comics (1972-atual): Como dito anteriormente no códex sobre Mordred, Morgana é uma vilã do universo sobrenatural da DC Comics. Surgindo numa aparência bem diferente da convencional (parecendo inclusive uma versão feminina do “Doutor Destino” da Marvel, com sua pele metalizada), nesta versão a feiticeira é irmã de Nimueh (aqui, uma personagem separada da Viviane, que se torna a Madame Xanadu) e de Viviane (Dama do Lago), as três sendo descendentes dos atlantes e se transformando em Homo Magi, uma espécie de humanos com maior afinidade à magia. No universo DC pós Flashpoint, aparentemente ela só é irmã de Nimueh, ambas filhas de Igraine. Seu papel na lenda arthuriana é similar ao clássico, e a vilã sobrevive até os tempos modernos obcecada pela eterna juventude e poder. Um de seus principais opositores é Jason Blood, um guardião que recebeu o demônio Etrigan graças a um feitiço de Merlin, tornou-se imortal e combate a feiticeira na época atual.

 

Marvel Comics (1955-atual): A Marvel também tem sua versão de Morgana Le Fay – visto que o mito é domínio público. Originalmente vilã do personagem Black Night (Cavaleiro Negro) e descendente de elfos (ligação com o universo do Thor), foi trazida aos tempos modernos inicialmente como vilã da Spider-Woman e aliada (também amante) do Doutor Destino. O início das histórias da personagem girava em torno de suas tentativas de recuperar o Darkhold, um livro mágico roubado pelo feiticeiro Magnus (mestre da Spider-Woman). Mais tarde tornou-se vilã recorrente da Marvel, aparecendo em arcos dos Vingadores.

Codex Avalon – Mordred

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Mordred é um dos principais vilões do Ciclo Arthuriano. Em praticamente todas as versões, ele é responsável por matar (ou ferir mortalmente, se considerarmos que ele foi levado à ilha de Avalon moribundo) o Rei Arthur na Batalha de Camlaan – e também acaba sendo morto por Arthur durante a luta.

Uma das origens de seu nome pode ser o latim Moderatus, fato referido em “O Legado de Avalon” pela bandeira de Mordred ter o desenho de uma balança.

Geralmente é retratado nas lendas como filho de Arthur (ou então um sobrinho), filho de uma relação proibida do rei com uma de suas irmãs (sem que ele soubesse): Morgause (na maioria das versões, como a Le Morte d’ Arthur de Thomas Malory, 1485) ou Morgana (esta versão mais enraizada na cultura popular nos últimos anos, principalmente por adaptações como o filme Excalibur, de 1981).

Tem um papel de traidor e usurpador no mito, tendo se tornado cavaleiro da Távola Redonda para depois roubar o trono do pai quando de sua ausência – devido a Arthur estar ocupado em sua guerra contra Lancelot após descobrir a traição dele com sua esposa, Guinevere. A tentativa de retomada por Arthur logo em seguida culminou na Batalha de Camlaan e no fim de seu reinado.

Em versões mais antigas, Mordred tem mais ou menos o mesmo papel que Lancelot possui nas versões mais conhecidas, roubando Guinevere de Arthur junto com seu trono.

Devido a seu papel na lenda, a figura de Mordred é quase sempre associada à traição, como na própria Divina Comédia do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), em que ele está condenado ao nono círculo do inferno, destinado aos traidores, junto com figuras como Cain e Judas Iscariotes.

Outras versões, porém, apresentam uma versão menos maniqueísta do personagem e o colocam de forma mais bidimensional.

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Vamos conferir algumas delas:

Excalibur (1981): Este filme adapta fielmente o livro Le Morte d’ Arthur, com apenas algumas poucas mudanças. Mordred é mostrado como filho de Morgana com Arthur, interpretado por Charley Boorman (jovem) e Robert Addie (adulto). Aqui ele tem o mesmo papel vilanesco tradicional da lenda, tal qual a mãe – trabalhando os dois em conjunto para destruir o reinado de Arthur.

– As Brumas de Avalon (2001): Na série de livros temos a visão das protagonistas femininas, tais como Guinevere, Morgana e Morgause. Mordred aparece como um guerreiro impetuoso e sombra de sua mãe. Ele vê seu pai Arthur como corrupto e decadente, e está convencido de que tem que removê-lo para salvar Camelot. Em um ponto, Mordred até mesmo lista boas qualidades de seu pai e admite que o admira de várias maneiras. No entanto, continua comprometido com sua missão, vendo-se como um peão no curso do destino.

– Merlin (2008-2012): Esta série de TV funciona como uma reimaginação do Ciclo Arthuriano, apresentando-a a um novo público. Mordred, nas primeiras temporadas, é um menino druida órfão dos pais (interpretado por Asa Butterfield, provável novo Homem-Aranha do cinema) devido a massacres realizados pelo pai de Arthur, Uther. Ele acaba se tornando uma espécie de filho adotivo de Morgana, que acaba servindo de guia ao garoto em sua vingança contra quem dizimou seu povo. Nas últimas temporadas da série, ele retorna adulto (Alexander Vlahos) e se torna cavaleiro da Távola Redonda, acabando por se rebelar contra Arthur, ferindo-o em Camlaan (como na lenda) e morrendo no processo.

Fate/Apocrypha (2012-2014): A franquia japonesa Fate envolve batalhas mágicas envolvendo heróis mitológicos e históricos. Além da aparição do Rei Arthur, aqui surpreendentemente retratado como uma mulher (falaremos mais disso depois!), a Saber, Mordred também está incluso no cânone. Originalmente ele fazia parte de um projeto descartado de jogo da franquia, denominado “Fate/Apocrypha”, que acabou sendo convertido numa série de light novels (como costumam ser chamados os romances no Japão). Igual ao genderswap (alternância de gênero de um personagem) de Arthur, aqui Mordred também é mulher, concebida por magia por Morgana. A aparência de Mordred é igual a de Arthur, constituindo praticamente só uma versão alternativa da personagem Saber – mas vale pela curiosidade quanto a talvez ser a versão mais diferente já feita do personagem.

DC Comics (1972-atual): Parte dos personagens do Ciclo Arthuriano foram incorporados ao cânone de super-heróis da DC Comics. Morgana Le Fay, que é mais antiga que sua versão da lenda e descendente do povo de Atlântida (falaremos mais depois!), é vilã recorrente no universo místico da editora, como as histórias de John Constantine. Mordred, sendo seu filho em muitas versões da personagem, acabou também fazendo suas aparições. No desenho da Liga da Justiça (2001-2004), Mordred, criança, almeja ser transformado em rei pela mãe caso ela consiga roubar a Pedra Filosofal, manipulando o Caçador de Marte para isso. Mãe e filho voltariam mais tarde na Liga da Justiça sem Limites (2004-2006), quando Morgana quer conquistar um amuleto mágico ao filho – mas ele o usa para banir todos os adultos da Terra e a Liga da Justiça vê-se obrigada a ser transformada em crianças para combatê-lo.

Livro II – Prólogo

O Legado de Avalon

 

Livro II: A Profecia do Condestável

 

 

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

 

(Fernando Pessoa)

 

Prólogo

 

O céu do fim de tarde assumia o tom cobre da ferrugem, consumindo aos poucos o aço azul da espada celeste que predominara por todo o dia.

Seu cavalo agitou-se, o homem que o montava acalmando-o num leve manuseio das rédeas. O animal parecia estar tão ansioso quanto ele em relação à aproximação do inimigo. O sentimento, na verdade, tomara todo aquele exército. Ainda que ele, o comandante, confiasse em sua estratégia; e que seus subordinados, cavaleiros fieis e de honra, demonstrassem seguir suas ordens até o fim do mundo – nem que tivessem de lutar nos confins do Oriente, na terra do Preste João, à sombra de gigantes; era impossível não sentir ao menos uma ponta de receio. O destino de toda uma nação estava em jogo. A batalha que se desenrolaria ali, ao lusco-fusco, decidiria a sina de Portugal.

Erguendo a cabeça e fazendo com isso sua cota de malha retinir de leve, Nuno observou os estandartes de suas tropas esvoaçarem ao vento que atingia o topo da colina, servindo como verdadeiro mensageiro da aproximação dos soldados de Castela. Admirou os símbolos costurados nos panos, perdendo-se em seus desenhos e detalhes como uma breve fuga daquela espera angustiante.

A maioria das flâmulas retratava o imponente escudo de Portugal: era delimitado por um contorno vermelho contendo onze pequenos castelos dourados ao longo de sua extensão, como se fossem fortalezas reais dispostas em círculo em torno da área que serviam proteger. A educação de Nuno nos ofícios da cavalaria incluíra extensas aulas de heráldica, e aprendera que os castelos representavam o reino mouro do Algarve, conquistado no passado pelo rei Afonso III. No interior do contorno vermelho, numa região branca que remetia a um campo de neve, via-se cinco escudos menores, azuis, dispostos em forma de cruz. Representavam tanta a fé do povo lusitano em Nosso Senhor Jesus Cristo quanto as próprias cinco chagas do Salvador – que o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, adotara como símbolo ao ter uma visão do próprio Cristo antes da batalha de Ourique, em que fora triunfante. Olhando-se com atenção, era possível ainda identificar cinco besantes, como eram chamados aqueles pequenos círculos brancos, dentro de cada um dos escudetes azuis.

Agora, aquele emblema serviria para lembrar ao leviano rei de Castela sua traição a tudo que era certo, a forma mesquinha com que tentava usurpar o trono de Portugal – e com certeza seria punido pelo Espírito Santo, através das armas dos bravos portugueses, por aquele ato.

Suspirando enquanto estendia o olhar por suas tropas, Nuno lembrou-se da origem daquela conflagração. Dois anos antes, no Ano do Nosso Senhor de 1383, morrera o rei Dom Fernando de Portugal. Caíra na desgraça de não ter filhos homens que pudessem herdar a coroa, e de acordo com as leis esta passou a Dona Beatriz, sua única filha. A questão era que D. Beatriz era casada com D. João I, rei de Castela, e por direito de casamento reivindicara para si o Reino de Portugal. Este, que no passado já fora separado de Castela pelo bravo Afonso Henriques, agora sofria a ameaça de ser conquistado novamente pelos vizinhos e ter sua independência perdida.

O povo lusitano entrou em desespero. Clamando para que uma solução fosse encontrada, viu boa parte dos nobres do reino se unirem à sua causa. Estes passaram a apoiar que outro D. João, no caso português, fosse coroado rei de Portugal. Ocupava a posição de mestre da Ordem de Avis, e também tinha direito pelo sangue: era filho bastardo de D. Pedro, pai do falecido D. Fernando, e com isso meio-irmão deste. Mesmo ilegítimo, era uma opção preferível a entregar o reino a um soberano estrangeiro. Como era de se esperar, D. João de Castela viu-se afrontado pela decisão portuguesa e invadiu o reino com suas tropas para fazer valer seu direito à coroa. Fora esse estado de coisas que levara Nuno a agora estar ali, comandando o exército lusitano contra os invasores. Uma posição que, alguns anos antes, imaginara jamais conseguir assumir.

Observou o contorno da serra, seu verde tornando-se mais e mais enegrecido conforme chegava a noite. O sol, sábio, escondia-se atrás dos montes para não ter de testemunhar o sangrento combate que se daria naquela colina. Nas proximidades estava situada a pequena vila de Aljubarrota, habitada por gente de valor; e Nuno tinha ciência de que a localidade ficaria conhecida, nos séculos por vir, pela vitória de Portugal tentando se manter livre ou pelo grande fracasso de seus esforços com a conquista por Castela.

Já dera combate aos castelhanos antes, nos Atoleiros; porém a escaramuça fora bem menor do que aquela em que agora se envolvia. Na primeira batalha, eles haviam vencido uma parte do exército de Castela. Agora o rei inimigo direcionara toda sua força contra eles, na tentativa de esmagar de uma vez os portugueses. O senhor de Avis, legítimo soberano de Portugal, confiara a Nuno a tarefa de vencer novamente. Fora justamente para isso que o nomeara Condestável: o supremo comandante de suas tropas. Contava com as bênçãos de Deus para poder cumprir sua obrigação. Se seu sangue caísse ali, significaria também o sangue de toda uma nação.

Baixou os olhos da serra e retornou-os ao exército. Os lanceiros, com suas longas hastes erguidas, assemelhavam-se a uma extensa linha de porcos-espinhos. Eram parte vital de seu contingente, já que formavam o cordão capaz de deter a cavalaria dos terríveis franceses, aliados de Castela. A arquearia também seria uma estratégia da qual faria uso, recurso para atingir os inimigos e reduzir seus números à distância, atraindo-os para um terreno em que ficariam mais lentos, antes que eles pudessem enfrentá-los frente a frente. O arco longo criado pelos ingleses era um achado, e Nuno agradecia todos os dias em suas orações por poder dispor também desse armamento – inclusive de um grupo de trezentos arqueiros enviados diretamente pela Inglaterra, aliada de Portugal. Chegavam notícias e mais notícias do enfrentamento de Inglaterra e França em suas próprias terras, e a rivalidade dos dois países também se demonstrava ali, em que cada um apoiava um lado na disputa pela coroa portuguesa.

Uma quietude nervosa dominava os soldados lusitanos, quebrada apenas por cavaleiros tossindo e o relinchar das montarias. Com todos os preparativos já feitos, aguardavam que o exército de Castela surgisse aos pés da colina, depois de terminar de contorná-la vindo do norte. Os inimigos demonstravam ter caído perfeitamente no plano de Nuno, que desejava que a batalha se iniciasse ao sul e não ao norte da elevação, limitada por riachos a leste e a oeste – posição em que as forças portuguesas tirariam vantagem do terreno. O Condestável acalmou mais uma vez seu cavalo, imerso em suas reflexões, quando viu e ouviu uma agitação junto às linhas de frente. Teve um breve mau pressentimento, eliminado quando identificou um de seus batedores, também a cavalo, abrindo caminho entre os compatriotas para informar-lhe a posição do exército inimigo. O cavaleiro vinha esbaforido, com os cabelos ensopados sob o elmo colados à testa. Detendo a montaria diante de seu superior, relatou sem demora o que descobrira:

– Os castelhanos já dobraram o sopé. Estão entrando na colina e vindo direto para nós.

O coração de Nuno, firme na Fé e na obediência ao seu rei, aprendera a conservar a calma necessária naquele tipo de situação. Respondeu num aceno com a cabeça, fitando brevemente os demais cavaleiros junto a si. Tudo estava preparado, não havia mais ordens diretas a dar antes que o combate se iniciasse. Todas as fileiras sabiam o que fazer e de que maneira o fariam. Para conservar sua solidez no comando, fácil de se esvair quando um homem na guerra ouve os primeiros gritos dos companheiros tombando e o retinir das espadas se batendo, precisaria agora recorrer ao Altíssimo. Sem delongas, informou:

– Vou rezar por nossa vitória. Retornarei antes que os castelhanos estejam à visão.

Alguns dos nobres ao seu redor esboçaram expressões preocupadas, como bem sabia. Perguntavam-se como um comandante poderia se ausentar de sua tropa momentos antes de o inimigo chegar, ameaçando deixá-la à mercê da desordem e do medo. Tinha pleno conhecimento de que muitos ali condenavam sua dedicação excessiva à religião, murmurando às suas costas ser ele alguém mais apto a se tornar frade ou padre do que um cavaleiro competente – a começar pelo fato de só ter se casado por imposição do pai, já que sua real vontade era permanecer casto o resto da vida.

Não lhes dava ouvidos, entretanto. Tinha consigo que só a Fé os levaria ao triunfo, por mais que aqueles cegos insistissem em não ver. Poderia até Viriato, o lendário português que resistira anos contra os conquistadores romanos na Idade Antiga, liderar ali o exército lusitano que, sem estarem com Deus, não obteriam sucesso algum.

Ele ia rezar. Sabia que a Providência amarraria as patas dos cavalos de Castela, se preciso fosse, para que pudesse voltar antes que o confronto começasse.

 

Os aproximadamente sete milhares e meio de soldados portugueses, dispostos na colina, ao longe aparentavam o dobro ou o triplo do contingente, os estandartes mesmo reduzidos pela distância conservando a imponência de um exército que prometia lutar até o fim. Conforme se afastava das tropas em seu cavalo, Nuno procurava algum lugar na colina em que pudesse realizar em paz sua prece. O topo do monte possuía arvoredos esparsos; as copas das árvores, muito próximas, juntando-se para aparentemente esconder segredos entre seus galhos. Enquanto galopava pela relva, dando as costas aos soldados para ganhar momentaneamente a impressão de inexistir qualquer expectativa de batalha naquele local, guiou a montaria até um conjunto de árvores mais extenso, semelhante a pequeno bosque. Os últimos passarinhos piavam nos ramos das oliveiras, enquanto o laranja-ferrugem do firmamento mais e mais se convertia no azul-negro noturno, como a pele de um mouro.

Penetrando na sombra oferecida pelas copas, o Condestável amansou o cavalo, fazendo-o trotar mais lentamente. Em meio aos troncos e arbustos, sentiu intenso frescor, aliviando um pouco a quentura daquele dia de verão. Sentiu vontade de tirar o traje de cavalaria, porém não o fez por saber que teria de voltar rápido aos seus soldados – além do que, não desejava retirar o camisão vermelho, por cima de sua armadura, com o desenho de uma cruz prateada florenciada nas pontas – símbolo dos Pereira, sua família.

Avançando um pouco mais, descobriu que a reconfortante impressão era oriunda não só das plantas, mas também de uma pequena lagoa existente no centro do arvoredo. Envolvida por pedras arredondadas e algumas faixas de lama, sua água resplandecia sob os últimos raios de sol atravessando as frestas entre as folhas acima, como se o líquido emitisse luz própria, cada uma de suas gotas constituindo um pequenino astro-rei.

Agradecido por aquele presente da natureza antes da árdua batalha, Nuno desceu do cavalo, amarrando-o a uma árvore próxima. Depositou cuidadosamente seu escudo, também com o emblema de sua cruz familiar, no solo fofo junto à lagoa, e caminhou até ela inspirando o ar revigorante daquele inesperado oásis.  Ajoelhou-se à beira d’água, retirou as manoplas e, com as mãos nuas, uniu-as em concha para apanhar um pouco do líquido e jogá-lo ao rosto. Repetiu o gesto mais uma vez, e então levou as mãos à boca para também saciar a sede. Aquela água era cristalina, talvez a mais pura que já encontrara.

Um vislumbre do Paraíso como aquele, um lugar tão maravilhoso, jamais poderia cair nas mãos de Castela. O pensamento deu-lhe ainda mais determinação para lutar. Engoliu mais alguma quantidade daquela bebida tão fresca, e quando ergueu os olhos no intuito de também levantar as pernas para se levantar… estacou na posição em que estava, o instinto fazendo-o conservar-se ajoelhado diante de figura tão admirável.

A mulher, de pé numa pedra do lado oposto da lagoa, brilhava assim como a água. Sua túnica branca sem qualquer mancha ou imperfeição, cobrindo-lhe o corpo dos ombros aos calcanhares, resplendecia como uma nuvem no céu banhada pelo sol. Descalça, tinha os braços, expostos a partir dos cotovelos, decorados por ricas joias como anéis e braceletes – somente alguns deles, juntos, aparentando valer mais que todo o tesouro que o reino possuía. A pele era branca, mas não tão clara – possuía um levíssimo tom mais escuro, oliva, como se bronzeada com timidez. O lindo rosto de olhos verdes encarava Nuno num sorriso, os cabelos castanhos encaracolados desenrolando-se para baixo de seu pescoço, alguns fios roçando os ombros. No alto da sua cabeça existia algo como um diadema dourado, encrustado de pedras preciosas. Uma coroa para aquele ser maravilhoso que sem dúvida era uma rainha. Mulher repleta de mágica, de aura divina – ao mesmo tempo em que, pela aparência física e trejeitos, remetia a uma autêntica dama portuguesa.

– Nuno… – ela chamou-o, e o coração do cavaleiro bateu mais forte, como se aceso por violenta chama.

Ele já a conhecia. Tivera a primeira visão daquela senhora um ano antes, quando se afastara do exército para rezar antes da batalha nos Atoleiros. Não se assustara nem da primeira vez em que a encontrara – confiava que havia sido enviada por uma força maior para auxiliar a ele e aos demais portugueses. Naquela primeira ocasião, a dama prometera a vitória dos lusitanos contra Castela – e assim ocorrera. Quando Nuno se retirara para a prece naquela tarde, no fundo tinha a esperança de vê-la novamente, junto a uma lagoa assim como da primeira vez. E lá estava ela, em todo seu esplendor. Bastou pousar o olhar sobre sua figura para o Condestável ter certeza de que voltariam a triunfar sobre o inimigo.

– Senhora… – disse timidamente, as mãos se unindo de forma involuntária em posição de súplica. – A que devo tal honra? Eu, um simples mortal, mas que tem fé e deseja proteger seu povo?

– Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal – a pronúncia de seu título pela leve e ao mesmo tempo retumbante voz da jovem fez o cavaleiro estremecer. – Chega o momento decisivo para sua nação. A batalha que decidirá o destino do mundo por três séculos. Caso conduza suas forças à vitória, um futuro brilhante aguarda Portugal. Seus bravos homens desbravarão terras jamais antes vistas, encontrarão riquezas sem comparação. A questão é: estará apto a liderar os lusitanos em combate assim que o sol se esconder de todo, nobre Nuno?

Tremendo, o comandante teve incrível vontade de baixar os olhos para a água, tomado pelo peso de encarar uma entidade tão poderosa, porém manteve-os erguidos, como meio de igualmente reforçar sua resposta:

– Estou apto, senhora. Estou apto, e sinto-me digno. Nós venceremos Castela nesta colina. O rei João amargará sua pior derrota.

O sorriso da jovem, até então retraído, alargou-se. Ela continuava fitando-o nos olhos, como se ele fosse seu igual. Nuno jamais teria sido capaz de descrever em palavras a honra que sentiu por tal gesto.

– Ouça, bravo guerreiro. É chegada a hora de assumir certos direitos que possui por sangue, embora até então não os tenha conhecido. Muitos antes de você tiveram pretensão a esse legado, porém não foram dignos o bastante para reavê-lo; outros também virão, após sua morte, com a mesma permissão a ele, mas igualmente não a concretizarão. Serás um dentre poucos, Nuno. Faça bom uso desta herança. Use-a, enquanto for vivo, para combater o mal, conservar a liberdade de sua pátria. Use-a, meu querido Nuno, para inscrever seu nome na História.

E, assim dizendo, a dama saltou nas águas da lagoa, nela desaparecendo completamente – dando a entender que a pequena formação era muito mais profunda do que aparentava.

Durante alguns instantes de silêncio, o Condestável continuou ajoelhado, certo de que sua benfeitora voltaria. As ondas provocadas na superfície da lagoa pelo mergulho da mulher brilhavam como rastros circulares de cometa num céu noturno, e se dissiparam completamente antes que ela retornasse. Sem se abalar pela suposta solidão, Nuno aguardou… e, subitamente, algo emergiu no centro da fonte, aspergindo o cavaleiro com aquela água que julgava sagrada.

Era apenas a mão direita da senhora, o resto de seu corpo permanecendo submerso no líquido. O punho segurava firmemente o cabo de uma espada – e encará-la foi, para o Condestável, como se o sol houvesse recuado do poente num só impulso, voltando para o meio do céu. A lâmina brilhava feito fogo, possuindo em sua extensão inscrições em alguma língua desconhecida, de ambos os lados. Os caracteres misteriosos refulgiam como recém-forjados, um dos lados brilhando mais que o outro – tal qual passasse algum tipo de mensagem. A guarda da arma era de metal simples, parecendo oriunda do mais singelo ferreiro – seu único luxo sendo o rubi encrustado na parte de baixo do cabo, como símbolo de um orgulho há muito esquecido. Apesar da simplicidade, a luz que banhava o conjunto do sabre fazia-o aparentar não ser daquele mundo – e sim fabricada pelos próprios deuses pagãos que, mesmo tendo sua religião vencida por aquela que a Nuno era a verdadeira, agora se viam dispostos a auxiliar um cristão na defesa de sua pátria.

– E-eu não sei o que falar… – balbuciou o Condestável. – Serei eu mesmo digno de brandir esse prodígio? Uma arma tão maravilhosa?

– És digno, Nuno – a senhora reafirmou, sua voz soando perfeita mesmo com sua cabeça embaixo d’água, como se proviesse do próprio ar. – E com ela o incumbirei, para o futuro, da mais nobre missão. Depois que os invasores castelhanos estiverem vencidos e sua nação segura, usará esta espada para encontrar algo há muito perdido, uma relíquia escondida dos homens para ser protegida; mas que precisa, agora, ser recuperada. Você cresceu ouvindo sobre ela, Nuno. Sei que, quando menino, desejava ser o nobre cavaleiro Galahad bem mais do que apenas nas brincadeiras. Agora terá o privilégio de empreender a mesma jornada que ele um dia concluiu.

Os olhos do Condestável brilharam mais pela emoção do que pelo reflexo da espada luminosa. Desde criança, era mesmo fascinado pelas histórias dos Cavaleiros da Távola Redonda, principalmente os feitos de Galahad, com base no qual moldara o próprio caráter. Tornara-se cavaleiro na esperança de um dia possuir ao menos um quinto da pureza que o lendário guerreiro de Arthur tivera. Muitos diziam que tudo não passava de mitos, porém o encontro com aquela senhora fazia-o crer o contrário. E o tal artefato… estaria ela falando do… não, não podia ser!

Livre do tremor, Nuno iniciou um gesto solene: levantando-se, retirou da bainha sua espada, afiada pelo alfageme de Santarém que não havia ainda sido pago pelo serviço – o ferreiro insistindo que o Condestável só lhe acertasse as contas no futuro, quando fosse ainda mais importante e precisasse de algum serviço seu. O sabre, de punho leve e aberturas na lâmina para aparelhar espadas inimigas em combate, foi fincado por Nuno no chão lamacento como um marco. Mesmo abrindo mão da arma, manteria a dívida para com o alfageme – em nome de sua honra.

Em seguida, caminhando calmamente, o Condestável adentrou a lagoa, a água aos poucos lhe subindo até perto da cintura conforme se dirigia ao centro da fonte. Ignorou a mágica que permitia à senhora deslocar-se pelo líquido como se este estivesse em bem maior quantidade que a real, já que ela se mantinha submersa, segurando a espada, como se o fundo estivesse a metros e metros abaixo. Detendo-se diante da fascinante lâmina, Nuno permaneceu admirando-a por alguns instantes, quase hipnotizado… até que, estendendo a mão direita com o máximo de reverência, tomou-a para si – o artefato luminoso agora em seu poder assemelhando-se a uma tocha de fogo intenso que eliminava as trevas ao redor.

 

Humphrey começava a ficar impaciente – e era possível perceber, pelos rostos de seus compatriotas, que eles já sentiam o mesmo. Os portugueses tinham pleno conhecimento de que o regimento de arquearia formado por eles, cerca de trezentos ingleses, era um dos maiores trunfos que possuíam contra o exército de Castela – porém essa vantagem corria o risco de ser perdida por conta da “carolice” do comandante lusitano. Nem mesmo numa cruzada parecia verossímil um líder importante para a moral da tropa como o tal Condestável sair para rezar com a força inimiga prestes a surgir. O mais intrigante era que a maioria dos combatentes lusitanos, nas fileiras vizinhas, apoiava a atitude do comandante. Talvez Portugal, em si, fosse um país dado a carolices.

Quando já começava a imaginar se seu país ofereceria resgate aos castelhanos caso ele e os companheiros fossem feitos prisioneiros naquela batalha – isso na melhor das previsões, já que era meio inocente esperar misericórdia de alguém que tinha os franceses como aliados – uma agitação tomou o contingente português. Erguendo a cabeça por sobre os elmos e desviando o olhar de estandartes, Humphrey viu, assim como os outros, o Condestável retornar galopando pelo alto da colina, inconfundível com seu camisão e escudo vermelhos tendo a cruz prateada no centro. No céu, a noite praticamente já caía, o tom rubro da despedida solar cedendo lugar às primeiras estrelas, que seriam testemunhas se a estratégia daquele astuto português daria certo ou não. Por algum motivo, ele conseguia observar o comandante das tropas com relativa clareza mesmo em meio à penumbra… até que compreendeu a razão – a qual, mesmo óbvia, insistiu em passar momentaneamente despercebida por causa de sua aparente mágica.

O Condestável retornava com uma espada erguida numa das mãos, e dela provinha luz própria, como se acesa com chamas invisíveis de cujo aspecto só se mostrava o clarão. Os soldados lusitanos o saudaram com crescente clamor, enquanto a vanguarda do exército começava a avançar para o sul, onde as forças castelhanas já se encontravam a curta distância.

Antes que o comandante desaparecesse no meio de suas tropas, Humphrey, tendo o olhar fixo na arma que ele brandia e sentindo o sangue ferver ao notar antigos caracteres celtas que na lâmina se destacavam, não via lógica na conclusão que obteve, porém tinha de aceitá-la como verdadeira. Ouvira a descrição dela apenas nas histórias que lhe contavam quando mais jovem, e agora era como se as antigas canções dos bardos se concretizassem, dando-lhes o crédito que muitos incrédulos ao longo do tempo insistiram em não reconhecer…

O líder das tropas portuguesas partia para o combate com a própria Excalibur em mãos, a espada com a qual o Rei Arthur forjara sua terra natal.